A Árvore do Homem  e Dimensões Fundamentais  da Biossíntese

A Árvore do Homem  e Dimensões Fundamentais  da Biossíntese

Introdução

O símbolo da árvore da vida ereta no centro do mundo é tão velho quanto a mitologia. A árvore da vida que estendeu-se entre o céu e a terra, foi transformada na árvore da humanidade, o corpo do ser humano, situado entre o solo sob seus pés e o céu acima de sua cabeça.

Em minha apresentação das dimensões fundamentais da Biossíntese utilizarei esta metáfora da árvore como uma estrutura integradora para entendermos o relacionamento entre as diferentes partes do trabalho que temos em comum.

  1. Correntes da vida: raízes da corporificação

Uma árvore tem raízes que a ancoram à terra e fornecem sua alimentação
essencial. Na mitologia nórdica a árvore do mundo sagrado possuía três raízes que eram fontes de vida, permitindo um fluxo de energia dentro do corpo do mundo.

Na Biossíntese as três raízes correspondem ao que chamei de as três correntes da vida. Eu acredito que todos na Biossíntese estão familiarizados com este conceito fundamental da embriologia funcional: os três tubos de nossa formação somática, formando tecidos internos, externos e intermediários. As três correntes de afeto que associamos são: a corrente de sentimento, associada ao estar bem alimentado física e psicologicamente, a corrente de sentimento associada com movimentos livres e graciosos e a corrente de afeto, associada com o contato agradável com a pele e com os órgãos dos sentidos. Todas as três correntes de afetos podem, é claro, ser carregadas negativamente, que é o fundamento somático da neurose: as contrações e estresses dentro e entre os sistemas orgânicos, quando a integração entre as três correntes interrompe-se e torna-se disfuncional.

As três correntes estão sedimentadas em nossa morfologia e fisiologia e expressas em nosso metabolismo energético. No âmbito psicológico elas passam a ser as três grandes áreas de preocupação: o que está acontecendo no sistema emocional, o que está acontecendo em nosso padrão de comportamento, postura e ação e o que está acontecendo no como sentimos e fazemos sentido no mundo. Chamamos isto de o ABC da Biossíntese: afeto, comportamento, cognição.

As raízes da árvore sugam alimentação, a qual viaja em condutos através dela, alimentando todo o organismo nos vários níveis verticais do ser. Do mesmo modo, as três correntes da vida estão associadas com níveis ressonantes de informação em todos os níveis de nosso ser. Podemos distinguir três formas de linguagem: a linguagem que descreve eventos – o que aconteceu, a linguagem descrevendo sentimentos e a linguagem que descreve crenças e atitudes. Este é o princípio de corrente vital aplicado à linguagem. Nas tradições espirituais encontramos um ensinamento básico da natureza tríplice do homem. Isto relaciona-se com os ensinamentos da trindade no cristianismo o que, indo mais atrás no tempo, nos leva ao mito egípcio de Osíris, Horus e Isis. Osíris, o deus moribundo, era simbolizado no corpo pela coluna vertebral, o eixo do movimento. Seu símbolo era uma árvore. Nós lembramos que Jesus foi crucificado em uma árvore, mas a mesma árvore tornou-se um símbolo para a ressurreição, assim como foi feito anteriormente para Osíris. Ísis, sua companheira, era simbolizada por ondas e por asas, ligadas à respiração e aos pulmões. Horus, o filho do casal, era simbolizado por um olho, o olho da claridade. Quando a claridade era obscurecida, falava-se da máscara de Horus, a face falsa escondendo o eu verdadeiro. Na tradição budista, lembramos que Buda recebeu a iluminação sob uma árvore. Os tibetanos nos trouxeram o conceito de três condutores, canais de inspiração os quais podem ser vistos como o nível mais elevado de expressão das três correntes vitais: a compaixão – o sentimento pelo outro, a ação com compaixão – o tratar bem o outro, e a sabedoria – a visão de si mesmo, dos outros e do mundo.

  1. Campos vitais: níveis de expressão

A partir das raízes da árvore nasce o tronco, a haste vertical, o corpo principal da
árvore. O tronco surge do solo e estende-se em direção à luz. No corpo humano também podemos falar do tronco e a base dele é dito como sendo a raiz central do corpo. O tronco no corpo é mantido unido pela espinha, o eixo do sistema motor e canal para os nervos motores, sensoriais e o sistema vegetativo a eles associado. A espinha tem sete nódulos naturais onde ela se curva e se inclina, e sobre estes nódulos estão situados os centros de nosso sistema de energia sutil, ligados às principais glândulas do corpo. O tronco da espinha é o eixo integrador principal do corpo, estendendo-se da pélvis ao cérebro, passando através dos centros nervosos que regulam a digestão e a sexualidade, até aqueles que mantêm o coração em equilíbrio, à garganta e a linguagem, os olhos e a visão, as orelhas e a audição e, finalmente, o próprio cérebro, o pedaço de matéria mais complexo existente na natureza.

Na Biossíntese falamos em níveis de expressão associados aos segmentos
verticais da espinha como “campos vitais”. Sexualidade é um campo vital. Linguagem é um campo vital.

O cliente que vem a nós para terapia apresenta seu problema em um ou mais destes campos. Os campos vitais nos fornecem diferentes maneiras de acessar o problema dele: podemos escolher trabalhar com o campo vital do movimento (o assim chamado campo motor) ou com o campo vital do sistema de crenças, ou ainda com as complicações da transferência. O trabalho terapêutico procura movimentar-se para cima e para baixo entre os campos vitais, ajudando a pessoa a obter mais integração consigo mesma, ajudando a comunicação interna e a transferência de informação como uma base para resolução de problemas, tensões, e os nós dos relacionamentos pessoais. Os campos vitais correspondem aos pontos do que chamamos de hexagrama da Biossíntese, que são diferentes rotas de acesso terapêutico. Por exemplo: trabalhar com sonhos para alcançar a respiração; ou trabalhar através de esclarecimento emocional para liberar um sentimento de espiritualidade.

  1. Linhas vitais: rede de conectividade

A árvore não fica de pé sozinha: ela é um organismo em uma floresta de outros
organismos. A árvore gera flores e atrai insetos. Ela joga sementes às quatro direções do vento. Ela pode fertilizar e ser fertilizada. Suas folhas formam parte do leito da floresta e servem de alimentação para outras árvores. A árvore é parte de um ecossistema.

O ser humano também não se mantém sozinho. Ele tem linhas vitais de relacionamento estendendo-se antes dele no tempo, através de seus pais e avós. Vinte gerações de influências e estamos de volta à Idade Média. O número de pessoas neste espaço de tempo, se cada uma delas representasse uma geração, nos levaria à época antes da construção das pirâmides no Egito, ao começo da civilização e da cultura. Nós temos linhas de vida estendendo-se depois de nós: nossos filhos e netos; não apenas aqueles que geramos fisicamente, mas aqueles que geramos profissionalmente. As linhagens de movimentos terapêuticos, de transmissão cultural.

Temos ainda as linhas de vida com nossos contemporâneos, relacionamentos sexuais com parceiros, a totalidade do imenso processo de formar um co-território com outro ser humano, o compromisso entre autonomia e dependência, separação e união.

Uma antiga aluna e colega minha da Inglaterra descreveu um belo modelo do relacionamento terapêutico com cinco aspectos chave, cada um dos quais tem duas distorções polares: eu posso entrar detalhadamente no modelo, mas vou citar apenas os cinco tipos de relacionamento descritos por ela, sendo que todos eles são importantes na terapia e também nas relações humanas normais. Em primeiro lugar ela descreve a aliança de trabalho, a estrutura contratual na terapia. Os contratos podem ser por escritos ou verbais, mas eles são acordos nos quais a responsabilidade é exercitada. Acordos rompidos são feridas na estrutura. Ela é um container para os outros quatro tipos de relacionamento. Em segundo lugar está a nossa velha amiga, a transferência. O que é transferido são atitudes antigas, sentimentos e expectativas do passado para o presente. É uma forma de condicionamento que limita oportunidades no presente. O trabalho com a transferência é o trabalho de tornar consciente o condicionamento e ajudar a pessoa a mover-se para além dele. Mas nem todos os relacionamentos são de transferência. Em terceiro lugar, é o que minha colega chama de relacionamento verdadeiro. É a igualdade humana de duas pessoas além de seus papéis. Existe espaço para uma raiva verdadeira do terapeuta para com o cliente e vice-versa, a qual não deve ser condicionada pela infância. Existe espaço para um sentimento real de perda quando um cliente se vai após cinco anos de terapia. Precisamos ser cuidadosos para não interpretar cada sentimento real como um efeito reduzido de uma causa infantil. Em quarto lugar existe o desenvolvimento do relacionamento – que é um fator chave na Biossíntese, o qual trabalha com padrões de crescimento do desenvolvimento. Este relacionamento ajuda o outro a desenvolver novas habilidades. Ela é construtora de futuro e não revolvedora do passado. E finalmente há o nível espiritual em um relacionamento, o encontro entre dois seres humanos como um encontro e oportunidade únicos, que nunca aconteceu antes desta maneira e nunca vai ocorrer exatamente da mesma maneira. O mistério e a mágica da presença, a percepção sagrada de uma base mais profunda que mantém um relacionamento capaz de contatá-la.

  1. Fugas de vida: padrões de experiência

A árvore tem anéis. A cada ano o tronco se expande e aparece um novo anel. A
seqüóia gigante na Califórnia, que é larga o suficiente para permitir que um carro passe através dela, tem 400 anéis. Cada anel deposita uma nova camada de história. O tempo de vida da árvore é medida por seus anéis.

O ser humano, nesta vida, encarna em uma célula fertilizada, que duplica-se e duplica-se, aproximadamente 32 vezes até que existam milhares e milhões de células. O homem emerge da vida pré-natal através do canal do nascimento para uma existência pós-natal: tudo o que aconteceu desde o nascimento até Terça-feira, 21 de abril de 1998. Mas nós temos fantasias, sonhos, esperanças e planos para o que vem pela frente: estamos construindo o que Stanley Keleman chama de o longo corpo do tempo, desenvolvendo-se em direção a algum ponto futuro, levado consciente ou cegamente. Este é o nosso período pré-mortal: tudo o que permanece esperando por nós nesta vida. Finalmente, há o segmento pós-mortal da experiência, o qual acessamos em sonhos, em visões arquetípicas, nas assim chamadas memórias de vidas passadas ou relatos de reencarnação. Nossas imagens sobre a morte e o que pode haver além dela.

A história e a história que virá, a qual chamamos de futuro, é misturada com imagens, influências das percepções dos outros. A memória é uma mistura de fatos e ficção, a experiência significa o que vivemos, é uma mistura do objetivo, subjetivo e do subentendido. Isto é o que chamo de fugas de vida, as estórias que contamos a nós mesmos sobre de onde viemos e para onde estamos indo, nossos sonhos, visões do passado, visões do futuro, o tapete de nossas vidas que estamos tecendo, o espetáculo de nossa corporificação.

Trabalhando com a memória, no meio do debate da falsa memória, com sua polarização entre fato e ficção, estamos tentando provocar os significados da experiência e ajudar um cliente a reestruturar estes significados de maneira que ele se torne um agente consciente em seu próprio teatro, e não apenas uma vítima de outras pessoas, ou uma vítima de forças ocultas que o atiraram na existência. Fugas de vida significam as formas da história de vida de uma pessoa, incluindo seus sonhos, suas pinturas, seus poemas e suas canções de triunfo e desespero. Esta é a região onde poesia e terapia, música e terapia, teatro e terapia, o sobrepor e o atravessar fertilizam um ao outro.

  1. Formas de vida: estruturas de integração

A árvore tem galhos. Wilhelm Reich escreveu: uma árvore torta nunca cresce reta. As árvores podem ser deformadas ou bem formadas. Sob condições severas, elas podem ser destruídas ou secar, ou podem ser objetos de beleza que tiram o seu fôlego. A forma da árvore depende de como ela é estruturada, a proporção de seus galhos, o seu balanceamento.

Na psicoterapia temos o conceito de estrutura e deficiências da estrutura.

Quando há muito pouca estrutura em uma pessoa temos uma falta de coerência, uma tendência a desintegrar. A estrutura está faltando. A forma extrema disto é um estado psicótico, repleto de incoerência. Energias intensas estão sendo movidas ou congeladas, mas a pessoa não é capaz de estruturá-las ou de integrar as dores em sua vida. Um estado limítrofe é um estado sem limites. Uma pessoa sem limites sente como se não tivesse pele: ela é como uma árvore cuja casca foi arrancada, super vulnerável, tornando-se facilmente doente emocionalmente. A Psicoterapia trata apenas com níveis de estrutura até a assim chamada pessoa normal, que tem uma estrutura normal, o que Reich chamou de Homo normalis. É nisto que se resume a psicoterapia, uma tecnologia para nos tornarmos normais? Esperamos que não, e temos termos como “individuação” que significa tornar-se individido. Quando Alexander Lowen quis encontrar uma metáfora para as rupturas no ser humano, ele pegou um toco de árvore e partiu-o ao meio com um machado. Individuação é a cura das rupturas, unindo os vazios em nossa integração, tornando-nos mais inteiros. A árvore do homem na Cabala, com suas modalidades mais alta e mais baixa, para a esquerda e para a direita, é um símbolo da totalidade do homem. Na Biossíntese trabalhamos muito com o conceito de polaridades, os extremos de fixações em um pólo ou no outro e na pulsação entre eles. Existem níveis mais altos de estrutura do que ser normal, mas eles não são estruturas brutas, feitos de massa ou conceitos do ego, são estruturas finas no sutil sistema energético. A meditação é um modo de sintonia fina e desta maneira, de reestruturar o campo energético. Assim, a forma de vida relaciona-se aos diferentes estágios de coerência os quais a pessoa atravessa no desenvolver de sua vida e é relacionada a este crescimento pessoal e espiritual e não ao seu envelhecimento no eixo do tempo.

Quando trabalhamos com formas de vida, estamos preocupados em ajudar uma pessoa a progredir em sua vida, a desenvolver o seu caminho, a tornar-se mais sensível a novas possibilidades e direções e menos satisfeito com níveis de adaptação ou acomodação anteriores.

  1. Bases vitais: fundações de apoio

As raízes das árvores estão profundamente enterradas no solo. Elas estendem-se abaixo da terra tão longe quanto os galhos acima do solo. A árvore está ancorada na terra e suga a umidade da chuva, bebendo milhares de litros por dia.

Na Biossíntese estamos preocupados com muitas formas de bases. A primeira
destas é, claro, a base física, nossa estabilidade sobre a terra, nosso senso de estar enraizado no planeta ou não. Mas a base física é apenas o primeiro tipo de embasamento. Existe o embasamento sexual com o corpo do outro. Existe o embasamento da natureza e associações com um lugar em particular. Existe a base humana de uma família ou uma comunidade. Existe a base conceitual do sistema de linguagem ou uma estrutura de crenças. E existe a base interna da fé no sentido da vida de uma pessoa.

Estas várias bases, atuais, lembradas ou imaginadas, são parte dos recursos de
uma pessoa, elas são fontes de força para apoiá-lo em crises, são fontes de cura para alimentá-lo em períodos de estresse. Na neurose nós lembramos dos traumas e esquecemos das bases vitais. O aspecto mais importante de trabalhar com trauma é o de reanimar as bases vitais. Uma mulher privada de seu pai com um ano de idade, lembra do conforto palpável e do apoio de sua mão no primeiro ano de sua vida. Uma mulher criando uma fantasia orientada dentro do buraco vulcânico de seu coração descobre no fundo do buraco uma garrafa contendo a mensagem: no fundo de todo buraco negro existe leite e mel. Um homem tem um sonho no qual seu falecido pai pede perdão pelos castigos infligidos na infância. Uma mulher morrendo de câncer coloca um ninho de passarinho em sua mesa. Uma pessoa que sofreu abuso traumático relembra e redescobre, imaginariamente, um cachorro que pode ajudá-la a fugir para um lugar seguro onde ela pode, pela primeira vez, sentir-se segura.

O exemplo mais tocante vem não de uma sessão terapêutica, mas de um recorte de jornal da Segunda Guerra Mundial. Uma menina de dez anos de idade, aprisionada em Auschwitz, manteve um diário que foi descoberto após sua morte durante o holocausto, onde ela havia escrito o seguinte: “todos os dias eu olho através do arame-farpado e vejo uma árvore. Esta árvore me ajuda a lembrar da beleza e do poder da vida”.

  1. Raios vitais: qualidades de inspiração e encarnação

O topo da árvore é chamado de coroa, assim como o topo da cabeça do ser humano é chamado de coroa. A coroa da árvore consiste de folhas sugando ar e banhando-se em luz. A fotossíntese da árvore fornece a energia para a biossíntese de seu corpo. Em nossa forma de biossíntese, estamos lidando com nosso acesso ao espírito – que significa respiração, e à luz que é um símbolo para nossas qualidades.

A psicoterapia moderna tende a desacreditar e temer a espiritualidade como sendo algo esotérico, um ritual religioso. Mas eu mostrei em um artigo recente que todas as formas de psicoterapia inspiraram-se de início em recursos espirituais, assim como em seus conceitos psicoterapêuticos psicodinâmicos, comportamentais ou corporais. Na Biossíntese é dado um lugar central ao alimento espiritual do ser humano, em contraste ao desamparo espiritual que caracteriza todas as formas de desespero existencial.
Em algumas formas de ensinamentos esotéricos, as qualidades são simbolizadas ou entendidas como raios de luz descendo sobre nós a partir de uma dimensão espiritual do ser. Em um artigo anterior eu me referi a isto como correntes de luz, diferenciando da corrente da vida em nossas raízes.

Wilhelm Reich escreveu que na base de toda neurose, por baixo de cada estado de dor e condição torturada, existe um simples, decente e claro estado de ser humano. Ele chamou isto de âmago. Nós chamamos de essência. Os cristãos chamam de alma. A espiritualidade é muito simples em essência: o professor espiritual dinamarquês Bob Moore, chama isto de sentimento por aquilo que você está fazendo. É o mistério por trás do problema, a cura por trás do ferimento, a face verdadeira por trás da máscara de Horus, as qualidades que estão precisando se manifestar para que os estresses da vida possam ser tratados de uma maneira clara.

No budismo a dimensão qualitativa do ser é simbolizado pelo céu aberto ou claro. Nuvens podem encobri-lo, mas ele está sempre lá. Algumas vezes o enxergamos rapidamente e o esquecemos novamente. Algumas vezes, assim como as pessoas que vivem em uma cidade e nunca viram o céu à noite, nós não o percebemos, mas ele trabalha invisivelmente sobre nós. Algumas vezes este céu claro torna-se uma fonte a qual podemos contatar diariamente. Nestes momentos nos sentimos “iluminados”, mas não é um estado permanente, e sim um lembrete da natureza desanuviada de nosso ser básico. Desta natureza sem nuvens vêm as qualidades básicas, a capacidade de amar, de percepção, de coragem frente aos demônios, de fé – apesar das torturas da guerra, de confiança na força da vida.

A dimensão qualitativa da vida, da maneira como é entendida pela Biossíntese, é transsomática mas corporificada, transpessoal mas pessoalmente encarnada, indestrutível, mas, no entanto, capaz de ser esquecida, sobreposta e enuviada. Podemos esquecer nossas qualidades, mas elas não nos esquecem. A árvore está constantemente recebendo o benefício dos raios do sol do céu claro, mesmo quando o sol não está visível. Das profundezas da esquizofrenia vem a imagem de um sol negro, penetrando o sentimento de calor humano, descongelando as qualidades de uma pessoa para que ela saia de seu estado de hibernação.

Conclusão

Eu procurei aqui dar um apanhado geral das dimensões fundamentais da Biossíntese utilizando a metáfora da árvore. É minha visão do trabalho com o qual estamos envolvidos. Não falei de métodos, técnicas ou princípios terapêuticos: estes vêm depois. As dimensões das quais falei não são apenas terapêuticas, mas pré-terapêuticas e transterapêuticas. Elas formam a base de trabalho em milhares de campos de aplicação.

Por David Boadella
Tradução de Karen Sachs
Revisão e adaptação por Rubens Kignel
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